"Ontem de noite não consegui, não consegui controlar a pulsação que me habitava por dentro. Ao meio da noite, ao abrir os olhos, senti como sempre a tua cabeça pousada sobre o meu ombro, preparada para me ver dormir todas as vezes que acordavas bem antes de mim. À minha volta senti o teu braço, enrolando-me como se tivesses em ti o medo de me ver partir para bem longe de ti, o teu inconsciente mentalizou-te que eu era a tua eterna prisioneira. Dei por mim, a querer deixar tudo, com toda a minha delicadeza desloquei o teu rosto e pousei-o sobre o lençol e fugi do teu braço, ao deixá-lo cair delicadamente em cima da minha almofada. Deixei o quarto com passinhos de menina num silêncio que respeitou o mais sagrado. No salão agarrei num vestido acabado de engomar e meti-o em cima de mim, foi desse jeito que te deixei meu amor. A noite ainda era uma criança vagabunda, ainda sinto a pele dos meus pés a esfregar o cimento das ruas que se perdiam em recantos sem fim. Naveguei até não poder mais, a chuva matinal começava a molhar o meu rosto de mulher perdida. Andei, andei, para me distanciar daquilo que me unia a ti. Adoptei a atitude mais desvalorizante para não ter de enfrentar o determinado presente. Fugi como uma prisioneira que tentava fugir à vigilância dum segurança qualquer. Já passaram horas que desvaziei a nossa casa da minha presença e o meu vestido já estava mais que gasto. Já não sabia por onde ir, sentia no meu corpo a falta de ti, o calor do nascer do sol não preenchia a ausência do teu abraço, a iluminação pública das ruaelas não compensava o brilho do teu olhar que se deleitava ao ver-me respirar, perdida entre os comboios do feirante de sonhos. Foi nesse momento que me senti meelhor, alcancei a secreta chave das minhas respostas. Precisava de fugir, refugiar-me em cantos desconhecidos, de sentir o cheiro da solidão, de viver a noite dos bandidos para perceber o quanto tu és o abraço do meu coração, o quanto tenho medo de caminhar sem ti, o quanto tu me tornas mais mulher. Depois de olhar ao meu redor, virei-me e regressei a casa, segui cada desenho que os meus pés fizeram ao pisar o chão sujo e molhado. Entrei em casa, abri a porta, subi as escadas, com a porta entreaberta do quarto, tive o desejo de te espiar, de te observar, de contar cada respirar teu. Deitei-me a teu lado, pousei a minha cabeça por cima do teu ombro, enrolei-te com o meu braço pois o receio de te perder percorria-me. Não quero adormecer, não quero perder nem um segundo dessa tua maravilhosa forma de dormir. Meu amor, és tão meu, e sabes que mais? Que nunca caiam as pontes entre nós..."
Ana Pereira